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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Memórias sentimentais de Buenos Aires: Cenotáfio do Retiro

“Os guerreiros são os verdadeiros pacíficos. Não pacifista, pacíficos”.
Pierre Closterman no documentáiro “Um brasileiro no Dia D”


O que faz um jovem de treze  anos ser tão fascinado por um tema tão árido como a guerra? Uniformes, armas, aviões? Impossível saber. No entanto, foi esse tema que ocupou meu tempo de intervalo de aulas por pelo menos dois anos sempre como algo distante no tempo e no espaço.
Como poderia adivinhar que poucos anos depois a guerra estaria mais próxima do que se poderia imaginar? De muito perto a mais distante, acompanhei a Guerra das Malvinas com uma paixão desmedida, sem encontrar paralelo.
Tanto isso é verdade que outro dia, em meu escritório, recebi uma pessoa para tratar de assuntos diversos e ao final, na sagrada hora do café, ele me perguntou:
- Desculpe mas você não estudou no CLQ?
Ante minha concordância me fez uma afirmação surpreendente:
- Pois então, eu lembro de você nos explicando acerca da Guerra das Malvinas no ônibus. Você nos explicava sobre armas, aviões, barcos, as batalhas... Tanto que quando fui à Buenos Aires lembrei do que nos falava.
Talvez isso permita aquilatar o espaço que essa guerra sobre a qual ainda encontro-me  ainda sedento por
Minha primeira visita ao Cenotáfio - Junho de 2011
conhecer mais e entendê-la em seus matizes e complexidades. No entanto, há uma experiência que pela primeira vez afrontei: a questão dos caídos e dos veteranos.
Essa última dimensão tenho, com muito orgulho, satisfeito através do contato com pessoas de diversas armas mas a dimensão dos mortos tive quando fui à Buenos Aires em 2011, através do Cenotáfio.
Confesso que , ao resgatar as memórias daquele momento no inverno daquele ano da volta, a  sensação foi de um extremo vazio. Senti um impulso de saudá-los militarmente mas o que consegui fazer foi olhar para aquelas placas de mármore negro  em fundo vermelho e ter a dimensão imprecisa de quantos faleceram, imprecisa por ser um nome mas que remetia a histórias que, ao menos parcialmente, fui conhecendo por relatos em livros e na memória de cada veterano que me coube conhecer.
Ali está o nome de Julio Cao, o professor que escrevia cartas para seus alunos , de Martel cujo avião Hércules foi derrubado por um Harrier,  os 55 pilotos da Força Aérea, dos  323 marinheiros do Belgrano,  pessoas que  fizeram o maior sacrifício que qualquer um possa fazer. Aquele momento foi o confronto definitivo com a crueza da guerra só superado por aqueles que viveram pessoalmente a realidade dela. Não digo que meu gosto por assuntos militares tenha diminuído, impossível, é parte de mim mas como um imã , aquele monumento em Retiro me chama à realidade e, sinceramente, gosto do fato dele ser chamado, singela mas poderosamente de “A los caídos em la gesta de Malvinas y Atlântico Sur” até porque o título de “herói” é algo muito particular e com sentidos muito divergentes, dependendo de sua posição em um conflito.
Sinceramente, não arriscaria um prognóstico sobre o desenlace da chamada “questão Malvinas” e o justo reclame argentino por elas, apenas penso que jamais uma guerra volte a ocorrer na questão da soberania pleiteada.
Confesso que sou inocente o suficiente para seguir acreditando que a “pena é mais poderosa que a espada”  e que aos conflitos se possa contrapor a capacidade de negociação e resolução pacífica para que não tenhamos mais monumentos e todos os heróis sigam vivos. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Malvinas 30 anos: Minha biblioteca "malvinera" - Parte 2

A cada ida à Buenos Aires a biblioteca acerca do conflito de Malvinas cresce. Hoje comentarei alguns títulos que comprei durante o ano de 2012 , nas idas em julho e dezembro.

LA PASIÓN SEGÚN MALVINAS - NICOLÁS KANSANZEW

Nicolás Kasanzew foi o principal correspondente durante a Guerra das Malvinas e que além de fazer suas reportagens com seu operador de câmera Lamella, encontrou tempo para fotografar a guerra.
Alguns rolos foram salvos dos ingleses e dos militares argentinos e isso constitui "La Pasión Según Malvinas", um livro que comove e mostra, nas palavras do próprio Nicolás, uma história que merece ser contada em todo o suas dimensões.
O cotidiano dos soldados no pré-guerra, as dificuldades encontradas, o início dos combates , os combatentes desde os conscritos até oficiais, todos estão nas cento e trinta e cinco páginas de um livro que é indispensável em qualquer biblioteca sobre o assunto.
No entanto, advirto, é um livro dificílimo de encontrar sendo que tive o prazer de achá-lo em um sebo chamado "Libros del Mundo" que tem sítio na internet. 


GUERRA DE MALVINAS - IMÁGENES DE UNA TRAGEDIA - ROMAN LEJTMAN

É possível amor à "primeira vista" em relação à um livro? Esse é um caso consumado de 300 pesos muito bem gastos.
Conhecido pela série "Documenta" (cujos capítulos podem ser encontrados no Youtube), obra referente da história da Argentina, Roman Lejtman percorre o tortuoso percurso desde os antecedentes históricos tanto remotos quanto próximos ao período da guerra até os combates propriamente ditos , dando um "horizonte" ricamente ilustrado e um texto de grande interesse para aqueles que pretendem conhecer graficamente o conflito.
Em formato grande, capa dura e miolo em papel couché (um verdadeiro "catatau" de 2 quilos 690 gramas) é um tesouro: perfis dos políticos e comandantes, batalhas, a diplomacia, enfim, uma ampla "cobertura" dos fatos.
Editado pela Editorial El Ateneo pode ser encontrado no sítio http://www.tematika.com ou nas livrarias do Grupo Ateneo em Buenos Aires e outras localidades argentinas. 
Fortemente recomendado!!!


MALVINAS - LA TRAMA SECRETA - OSCAR RAUL CARDOSO, RICARDO KIRSCHBAUM E EDUARDO VAN DER KOOY

Divido minha biblioteca malvinera em alguns grandes grupos: os livros que são um testemunho fotográfico do conflito, representado pelos dois livros acima que tem forte apelo de imagens, livros de combatentes, como Operação Rosário e 1093 tripulantes do A.R.A. General Belgrano, os livros e atlas ingleses, conforme expreso no meu primeiro artigo sobre o assunto (para ler clique aqui), compilações e obras que costumo chamar de "centrais" , ou seja, aquelas que explicam com detalhes os bastidores do conflito, suas complexidades, idas e vindas de um conflito como Malvinas.
Nesse sentido, "Malvinas la trama secreta" é um que particularmente colocaria no topo de quaisquer recomendações. Kirschbaum, Van der Kooy e Cardoso eram repórteres do Clarín e já no outono de 83 entregavam uma rigorosa investigação jornalística que coloca , com todas as tintas, a improvisação, o despreparo, a falta de um cálculo estratégico minimamente coerente com a realidade de um mundo ainda tensionado por uma Guerra Fria que ainda demoraria sete duros anos para ser superada, as alianças tradicionais, o isolamento progressivo de uma Argentina que iniciou a guerra contando com a falta de reação inglesa e uma neutralidade fantasiosa dos americanos (algo que dizem que os "yanquis" venderam mas me parece mais inferido de onde não se devia), a aproximação do movimento dos não alinhados (que a Argentina rejeitara a dizer-se participante) e guerra, o cerco, a derrota e a derrubada do processo, dando um entendimento que será fortalecido por outros livros que comentaremos futuramente aqui.
Por sua precedência é um livro importante mas também é de se notar que essa edição atualmente em circulação conta com importantes aportes vindos dos documentos revelados recentemente.
Uma obra de referência.


Tenho mais livros "malvineros" para comentar mas por hoje ficamos por aqui. Até a próxima!

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Leituras argentinas - Lagrimas de Hielo -Natasha Niebieskikwiat

Ninguém em são consciência pode pretender que uma guerra seja um momento de exercício estritamente profissional como cada um de nós faz em seu dia a dia. Mesmo em uma tropa altamente profissionalizada, que sabe o que tem pela frente, o princípio básico que rege o dia a dia das tropas é o da sobrevivência.
Como já foi dito, primeiro por si e por sua sobrevivência e depois pela Pátria e pela honra e, por mais paradoxal e inconfessável, esse é o princípio que rege a "diplomacia por outros meios" como diria Clausewitz ao referir-se à guerra. 
No caso desse livro em particular, Lagrimas de Hielo (Lágrimas de Gelo) da jornalista argentina Natasha Niebieskikwiat, não seria tão absurdo considerar o que se relata como um exagero mas, infelizmente, não é. E as denúncias são gravíssimas como poderá se ler.

A GUERRA A TRAVAR E AS TROPAS ARGENTINAS

A questão da motivação para ir às Malvinas são objeto de discussão dentro da própria Argentina, com alguns (maioria) defendendo que a invasão deveu-se à um impulso de manutenção da ditadura argentina que estava com problemas graves na economia e já com contestações graves de ambos os aspectos e outros como Nicolás Kasanzew que não associam diretamente à tentativa de preservação da ditadura mas sim à concretização de um reclamo argentino que tinha se prolongado por mais de vinte anos e que estava, ao menos na fase da intenção, a ponto de se concretizar.
O chocante livro de Natasha Niebieskikwiat
No entanto, por mais tempo que tivesse para ser  pensada e planejada, o que se viu foi uma tropa majoritariamente de conscritos, ou seja, pessoas que estavam prestando o serviço militar obrigatório, com diversos graus de instrução, normalmente sofríveis, já que a classe de 63 estava incorporada a pouco tempo e a classe de 62, com muitos já fora dos quartéis, os chamados "chicos de la guerra" foram mandados, alguns informados em última hora, foram despachados para ilhas inóspitas, próximo ao inverno, com temperaturas baixo zero.
O chamado "cálculo estratégico" que nem era cálculo e muito menos estratégico, é que os Estados Unidos  ficariam neutros e a Inglaterra não reagiria, ou seja, a principal potência com passado colonialista,  deixariam para lá um território que ocupavam e suportariam ver suas tropas Royal Marines com o rosto no chão e rendidas. 
Sobretudo, o governo de plantão em Buenos Aires esqueceu-se que Tatcher também estava passando um momento político e econômico extremamente delicado e à ela conviria ter um momento de união nacional? Porque não uma guerra ou como diriam os Buzzcocks, "Let´s start a war, said Maggie one day". Estava tudo pronto para a tragédia.

CORTANDO OS SUPRIMENTOS E GERANDO CASTIGOS

As tropas argentinas foram dispostas pelo continente, em diferentes locais, alguns de acesso muito restritos, para fazer frente à uma possível resposta inglesa. Quando essa se efetivou,  o afundamento do ARA General Belgrano e o cerco aéreo feito pela RAF, cortou as linhas de suprimento tanto de armamento mas principalmente de comida e roupas para as tropas já estabelecidas, em grande número.
Obviamente, com esse estrangulamento, a maioria dos soldados estava despreparada, desprotegida, sem condições de alimentarem-se de forma condizente com um soldado próximo à batalha.
Esse fato, longe de ser um momento de uma falha logística vem a condicionar muito dos motivos pelos quais os fatos relatados no livro, entre mortes por fome, privações como momentos de absoluta crueldade, como estaqueamentos e outras formas de punição que beiraram o absurdo absoluto.
Matar uma ovelha era motivo para que os soldados fossem colocados semi-nus no chão úmido e frio do inverno do sul o que provocou amputações e problemas de saúde que se perenizaram.
Além do mais, é de se notar que os altos mandos argentinos desprezaram os relatos dos médicos que indicavam graves casos de desnutrição o que abalou o poder combativo e, apesar do empenho das tropas foram fatores decisivos no desgaste do grosso das tropas colocadas no arquipélago.

O PÓS-GUERRA E A FALTA DE JUSTIÇA

Os que voltaram foram escondidos, realimentados para parecerem menos debilitados e são obrigados a firmar documentos que  los impedia de denunciar junto aos órgãos de justiça os abusos sofridos. Muitos calaram não apenas por conta do compromisso firmado mas também pela intensa humilhação que sofreram e do qual demoraram a se recuperar e quando o fizeram não tiveram seus reclamos não reconhecido como crimes de lesa humanidade, um debate que segue e que ainda está para serem resolvidos assim como as gestões junto aos ingleses para reconhecer os mortos ainda sem identidade conhecida.
Como se pode perceber esses assuntos que delineamos aqui e são abordados no livro e que merece uma leitura detalhada e com o interesse do conhecimento não apenas da história argentina mas de nosso continente. Uma história que nós brasileiros desconhecemos o que é lamentável. Recomendações sinceras.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Malvinas 30 anos: Minha biblioteca "malvinera"


A minha biblioteca malvinera, ao menos até minha próxima ida à Buenos Aires, está composta numa quase equilibrada quantidade de livros argentinos e ingleses acerca do conflito sendo que nesse dia 11 de maio comprei um de autor brasileiro que ainda estou lendo. Tentei selecionar autores de reconhecida competência no assunto, alguns dos quais participantes da guerra.
Abaixo farei  uma pequena indicação e comentários dos livros que tenho e os mesmos poderão ser adquiridos via correio nas livrarias mencionadas. A única questão contrária é que o custo de envio de livros da Argentina para o Brasil é caro o que não favorece pequenas aquisições via Internet.
O mais recomendável, em minha opinião, é visitar as livrarias em uma ida à Buenos Aires ou pedir para algum amigo comprar, acredito que é financeiramente mais viável. Caso não tenha ninguém, indico o site.

OPERACIÓN ROSARIO - La Recuperacion de las Islas Malvinas – Alm. Carlos A. Busser (R) - Ed. Associación de Infantes da Marina

A Operación Rosário foi o nome adotado pela Marinha argentina, Agrupamiento de Buzos Tácticos (forças especiais) para o operativo de recuperação das Ilhas Malvinas (aprendam: os argentinos não INVADIRAM as Ilhas Malvinas, quem fez isso foram os ingleses, elas foram recuperadas e novamente usurpadas em 1982). Refere-se à Nossa Senhora do Rosário, padroeira argentina, cujo nome não foi usado por escrúpulos dos militares ao associarem a figura da Virgem com um operativo militar.
O organizador, Almirante Büsser, foi o oficial de alto posto responsável pelo planejamento e execução de todo o procedimento e mais do que uma narrativa solitária do alto oficial, contém testemunhos dos principais envolvidos, dando um panorama muito concreto e importante de todo processo.
O que mais é interessante notar é mais do que o estudo de um fato militar, a leitura desse livro constitui-se em uma oportunidade ímpar de verificar como foram feitos os cálculos estratégicos e operacionais para que a operação fosse coroada com êxito indiscutível, tanto pela ausência de danos significativos à população local (kelpers) quanto ao reduzido número de baixas (dois soldados feridos e um oficial argentino morto), tomando o contingente dos “Royal Marines” (fuzileiros) e seu quartel de surpresa, além da rendição do governador inglês Rex Hunt em condições excepcionais, retirando-se em seguida para que o exército ocupasse o postos da Marinha que viria a retrair-se após o afundamento do A.R.A. General Belgrano pelo submarino nuclear inglês Conqueror.
Mesmo que os erros estratégicos que sobrevieram de forma alguma podem dar à operação o qualificativo de improvisado o que não se sustenta numa análise mais detida. A questão é muito mais profunda, a imprevidência, oportunismo e desrespeito à vida dos soldados conscritos. No entanto, isso é uma história outra que não está no escopo desse livro.

O livro está disponível do Instituto de Publicaciones Navales - cujo acesso você consegue aqui.


1.093 TRIPULANTES DEL A.R.A.. CRUZERO GENERAL BELGRANO - Hector E. Bonzo


O capitão Hector E. Bonzo era o oficial em comando do A.R.A. (Armada Republica Argentina) General Belgrano,um antigo cruzador americano da década de 40, sobrevivente de Pearl Harbour e da 2a. Guerra Mundial que foi protagonista de um dos atos mais controversos da Guerra das Malvinas que foi o afundamento dessa nave com 1.093 tripulantes fora da chamada "Zona de Exclusão" imposta pelos próprios britânicos.
Alguns o consideram um ato de guerra, outros, um assassinato já que essa posição fora da zona de exclusão , em tese, o colocava à salvo dos torpedos dos submarinos nucleares ingleses que patrulhavam as águas do arquipélago, fato conhecido dos argentinos que precipitaram  a Operação Rosário exatamente por esse motivo.
A vida do cruzeiro é largamente acompanhado, desde a vida cotidiana de  uma majestosa nave mas, principalmente, dos hercúleos esforços para o resgate dos sobreviventes depois do torpedeamento feito pelo submarino  HMS Conqueror.
É um livro que subsidia ricamente o entendimento do feito, principalmente do lado argentino e também a constatação que por muito tempo será um mistério todos os elementos desse fato histórico já que a Inglaterra estabeleceu um sigilo de 90 anos em seus documentos sobre o assunto.


O livro está disponível do Instituto de Publicaciones Navales - cujo acesso você consegue nesse link.




THE ARGENTINE FIGHT FOR FALKLANDS - Martin Middlebrook



Talvez Martin Middlebrook é o historiador inglês mais qualificado para dar um panorama adequado sobre o conflito contemplando ambos os lados da batalha.
Entre suas virtudes é reduzir sua análise ao político e militar sem levar em conta a questão da soberania sobre o arquipélago fazendo, dentro do possível, o mais isento relato que se pode encontrar. 
Analisa, com riqueza de detalhes, o desempenho comparativo entre argentinos e ingleses, o comportamento de ambos os lados em batalha, traçando uma imagem honesta mas cruel do desatino que foi a empreitada, das falhas tremendas de logística e de suprimentos o que fez que frio e fome fosse uma constante entre os bravos soldados argentinos que, sem dúvida alguma, mereceram o reconhecimento inclusive dos próprios ingleses.
Entrevistando oficiais e soldados tanto do Exército como Marinha argentinas (a Força Aérea recusou-se a atendê-lo), traça um perfil completo mas, ao meu ver mais valioso, da reação com a derrota e as perdas em homens (por unidade participante) e material.
Uma obra que vale por seu aprofundamento, qualidade de texto e riqueza de fontes. Infelizmente, apenas encontrei a edição em inglês que está disponível na Amazon.com onde, mesmo com  o aumento do dólar, torna mais barato comprar direto do que por livrarias brasileiras. O link para a página do livro na Amazon é este.


BATTLE ATLAS OF THE FALKLANDS WAR 1982, BY LAND , SEA AND AIR - Gordon Smith


Quem leu meu posta dos "Recuerdos" da questão da Guerra das Malvinas em minha vida, lembra-se que uma das minhas tentativas foi de traçar mapas que explicassem , mesmo com escassez de detalhes, o que estava acontecendo em território malvinense.
Essa ousada tentativa tinha dois problemas: falta de informação e de conhecimento técnico necessários para fazer essa tarefa de modo competente. 
Qual não foi a minha surpresa ao ver esse livro (que mais parece uma apostila) na Amazon. com! Sem dúvida, eu o adquiri e me deslumbrei com a riqueza de detalhes que são um atrativo e tanto, apesar de que, advirto, não esperem mapas em 3 dimensões e outras sofisticações, é coisa de mesa de comandante, com todas as informações mas com uma simplicidade mais do que necessária nesses casos.
Compreende, como o próprio texto diz, operações navais, aéreas, terrestres e aero-navais , lançadas nos porta aviões ingleses já que o argentino não saiu de seu porto ou ficou próximo ao continente.
Para quem gosta de teoria militar é um título precioso seja para aprender o que fazer mas principalmente o que não fazer em uma guerra.


A página do livro na Amazon.com pode ser acessada aqui.


CÓDIGO DAS PROFUNDEZAS - Coragem, patriotismo e fracasso a bordo dos submarinos argentinos nas Malvinas - Roberto Lopes





Esse livro é um que estou explorando com bastante entusiasmo porque vi um livro bem escrito, intensamente pesquisado e de origem brasileira que demonstra a história não apenas dos submarinos argentinos mas de outras nações do Cone Sul. 
Está valendo a pena por conta das surpresas que a gente tem em ver que uma guerra que vitimou tantas pessoas tenha sido feita com tanta temeridade, para fazer o mesmo. Volto com essa resenha.
Para ver uma entrevista concedida pelo autor para o Jô Soares pode ser assistida aqui e a página do livro na Livraria Cultura, nesse link


Essa biblioteca está incompleta ainda e vai ser enriquecida em breve. Deixarei todos informados e com mais sugestões. Saludos!

sábado, 5 de maio de 2012

Malvinas 30 anos: O amor depois da guerra (Noemi Ciollaro - Página 12)


Nota: não existe guerra que possa ser contada sem considerar-se o lado humano de todos os envolvidos que são muito mais que os combatentes, são suas famílias, os cônjuges e filhos. Nesse artigo originalmente publicado no jornal Página 12, uma mostra contudente da amplitude dos danos que uma guerra consegue fazer já que doem mais as dores que se sentem por dentro.
ESSE TEXTO É PUBLICADO COMO UM TRIBUTO ÀQUELAS QUE VIVERAM A GUERRA ATRAVÉS DE SEUS MARIDOS E DERAM MOSTRAS DE FORÇA, EMPENHO E AMOR POR AQUELES HOMENS. É, DA MINHA PARTE, UM MANIFESTO PACIFISTA ÍMPAR.

NOTA: Tentei interferir o menos possível no texto apenas fazendo adaptações necessárias ao melhor entendimento em português. Em negrito estão intervenções das pessoas outras que não as esposas e alguns termos usados em castelhano foram mantidos , especialmente os militares, com notas para corresponder a termos mais usuais em outras línguas que não o castelhano ou português.




"Eram adolescentes fazendo o serviço militar obrigatório quando foram usados como carne de canhão em uma guerra louca. As fotos de suas namoradas eram companhia nas trincheiras. Elas, as mesmas que se despediram com medo e orgulho, foram as que os receberam quando a derrota estava escrita em seus corpos mais do que qualquer outra cicatriz. Durante décadas apoiaram esses homens que sabiam serem heróis quando ninguém os via desse modo, mas com quem podiam falar sobre as coisas mais cotidianas. Com o tempo, dizem os especialistas, algumas chegaram a ter os mesmos sintomas de seus companheiros ou se debatiam entre a submissão e o vínculo maternal como se fossem faces da mesma moeda. Este ano suas vozes começaram a ser escutadas de outra maneira dentro do Centro de Saúde para Veteranos das Malvinas, que também atendem familiares dos que combateram no extremo sul de nosso país. Reunidas ali, quatro mulheres de ex-combatentes testemunharam à Página 12 o que elas e seus companheiros viveram depois da guerra quando o desampara social e do Estado eram a única perspectiva.

ERA COMO SER SUA MÃE E SUA MULHER

Gabriela Suárez (52) esposa de Sergio González: "O conheci no ano de seu regresso das Malvinas, temos 27 anos de casados. O encontrei em seu pior momento, no pós-guerra, emocionalmente em carne viva mas orgulhoso do que havia feito, nunca se queixou de haver tido de defender a pátria. O que tinha era uma dor enorme pela perda de tantos amigos, "irmãos da vida" como chamam a seus companheiros. Achava estranho que não tinha raiva, nem rancor mas o que tinha era dor:  "sinto que vim com as mãos vazias e que tudo foi em vão", dizia. Foram anos muito difíceis por que não sabia de nada e de repente tive de ser psicóloga, esposa, tudo junto. Ele teve uma má experiências com psicólogos, o levávamos obrigado mas abandonou. A terapia era feita em casa na madrugada que chorava e falava, por anos e anos: E eu?..."quando o conheci eu trabalhava, nos casamos e continuei a trabalhar até que nasceu nosso primeiro filho quando abandonei o trabalho e me dediquei a eles e à ele. Temos três filhos de 25, 20 e 18 anos. Fiz um pouco de terapia individual e familiar com a mãe dele, as irmãs e ele para estimulá-lo à participar mas não quis saber de nada, preferia desafogar-se comigo a quem falava quando queria, se não quisesse não falava no assunto, ele dirigia os tempos. Para mim não era simples: as coisas que me contava eram desoladoas... e eu apenas tinha 23 anos. Mesmo hoje é terrível escutar as coisas que passaram lá, assim que tão jovem... fora como estivesse envolvida na guerra, havia momentos em que dizia a ele que não sabia se fazia bem à ele, não tinha os elementos para ajudá-lo, pensava que minhas repostas poderiam ser contraproducentes mas ele dizia que comigo conseguia. Minha esperança agora é com esse Centro de Saúde criado para eles e para as famílias consiga tratamento mas não quer voltar a reviver...  Eu o frequentaria para que frequente ele. Embora também... eu acredito que nos faz falta porque é um peso muito grande que temos, necessitam muita ajuda, não sei se aconteceu a todas o mesmo mas era como ser mãe apesar de ser suas esposas. Havia momentos nos quais me sentia sua mãe, depois disso equilibrou-se ... sim, acredito que faria bem a todos , inclusive aos filhos

"SE NÃO FALAR, NOS SEPARAMOS"

Mônica Avila (48), esposa de Mario Giraldez: "Comecei a namorar com Mário aos 15 anos. Não pude despedir-me dele quando foi à Malvinas, me avisou por telefone que o levariam e o recebi quando voltou. O olhar que tinha quando foi nunca mais existiu, nunca mais voltou a ser o mesmo depois da guerra. Cheguei em sua casa emocionada porque estava vivo mas o vi inexperessivo, me olhava fixamente com esses olhos, com esse rosto, sujo, espantado. Eu tinha 18 anos, não sabia o que passava e  tampouco sua família. Ficou três meses sem falar nada e tive de tirar forças de onde não tinha para apoiar a pessoa que amava... E fomos crescendo os dois com tudo o que ele teve de viver, com essa carga que trazia de lá. Saíamos a caminhar e quando as pessoas que o conheciam desde a infância o cumprimentava, abraçavam-no chorando, ele os afastava, olhava e dizia "estou bem", as únicas palavras que pronunciou nesses três meses até que em um dado momento me enraiveci , o encarei e disse : "se você não falar, nos separamos, não me verá mais , acabou". Depois de três dias voltou e começou a ter o mínimo de diálogo comigo. Assim seguimos lutando, ano depois de ano, para que fosse reinserido na sociedade, que fosse trabalhar, ele que tinha uma mãe viúva. Nos casamos em 84  e sempre, todos esses anos, foram de luta, sozinhos. Temos três filhos, um de 26, uma de 22 e outra de 20.
Ah, sim, tenho o costume de chorar... (diz desculpando-se).Não é o que tudo isso me custou, é o grande amor que tenho por ele. Quando fomos ao Regimento 6 no ano passado, por amor deixei meu trabalho, o fiz para conhecer esse lugar que ele ama, no Pampa. Ele me dizia que era ali que era feliz e eu dizia "o que acontece, é um lugar mágico?" e ele realmente era feliz ali.Ver de longe ele interagindo com quem esteve com ele nas ilhas lutando na Companhia B, no monte "Duas Irmãs"... Ali são outras pessoas, meninos de 18 anos, voltam a viver, a contar isso indiferente a todos. Emociona-me e me faz chorar saber que depois do que nós lutamos , colhemos os frutos. Que eles agora pode falar e dialogar com pessoas que não são veteranos e pertencer de novo à essa sociedade com quem não queriam saber de nada porque se sentiam excluídos. Sim, acredito que as mulheres necessitam de ajuda porque se deixou em nossas mãos uma carga enorme que era a saúde de nossos esposos. Sim, no museu do Regimento 6 falta um espaço para as esposas porque eles estão aqui hoje por conta de nós. Olho para trás e fiz bem as coisas, criei meus filhos que me acompanham a todo lugar, lhes dei um pai maravilhoso e hoje o vi no jardim do Centro e pensei que fiz as coisas muito bem..."

A psicóloga Marcela Aldazábal explica que "geralmente é a mulher que vem à consulta porque o veterano é como um acúmulo de sintomas desde fora, que não dorme, que é violento, que isola-se ou são aqueles que vêm dizendo "venho porque minha esposa me manda porque já não me aguenta mais". Depois vêm elas porque quando eles melhoram também não aguentam, há que desenvolver um trabalho de reacomodação porque o vínculo está doente. A crise da mulher aparece quando o marido começa a melhorar e ela pergunta-se o que passa com ela e com sua vida.
Por sua vez a psiquiatra Viviana Torresi afirma: há pouquíssima simetria de vínculo, não há casal igual. Há um excesso de tolerância justificando e amparando-lhes nessa posição de vítimas. As mulheres tendem a criar cumplicidades com os terapeutas: "te chamei mas não diga que fiz isso". É como uma mãe na terapia com um menino, ou seja, tem de restruturar todos os vínculos familiares.


NÃO FEZ TERAPIA

Adriana Villanueva, Carolina Beux, Graciela Suárez, Mónica Avila.
Imagen: Constanza Niscovolos
Carolina Beux (42), esposa de Patricio Louzao: "Quando Patricio foi a Malvinas eu começava a escola secundária, o conheci em 84 e não sabia que havia ido à guerra, noivamos quando ele tinha 24 e eu 17. Aí soube da guerra, mas jamais falava. Em 95, quando nos casamos começou a falar alguma coisa. Ele faz uma couraça de homem que superou, que tem tudo claro, que foi a guerra e voltou, nada o perturba e isso durou muito. Durante 10 anos não ia aos encontros de 2 de abril e eu sempre respeitei seus tempos porque se fazia perguntas ele se fechava mais. Duro, sim, mas quando chegava a data não o abraçava e não podia dizer "te amo". Com o passar dos anos começou a falar, o convidaram à uma rádio com outro companheiro e a sua mensagem era "gostaria de voltar às ilhas" e eu pensava que ele tinha enlouquecido mas estava orgulhoso disse dez anos depois. Nossa escala de valores era diferente: quando morreu seu pai disse-lhe: "Cara, morreu seu pai! Reaja!" mas ele me respondeu que seu pai havia morrido e ele tinha de seguir adiante. Pensei: esse rapaz não se permite nada, não quer ver, foge. Passou  o tempo e adotamos um filho,temos dois pequenos Joaquín de 10 anos e Malena de 3 anos e o trâmite foi longo. No início tratou de conformar-se ante a situação complexa e me dizia "bem, é isso que nos cabe... " mas chegou Joaquín e o desestruturou, fez com que rompesse todas as couraças e à partir daí permitiu-se chorar em um ato do colégio porque viu ao menino fantasiado de amendoeira... Ao longo de dez anos se ajeitando até que no aniversário de 25 anos das Malvinas disse: "sim, vou ao ato.." Ali encontrou-se com seus companheiros de serviço militar obrigatório, eles fizeram um ano com boa instrução, conheciam a disciplina dura e como sobreviver, disse que assim foi mais suportável. Na guerra era "furrier" , secretário do chefe da Companhia, Abella, que lembrava como alguém de caráter muito complicado como militar mas que não permitiria que morressem. Patrício disse que os que estavam nos poços de raposa (poços cavados na terra)  (foxholes na terminologia militar americada - Nota do Tradutor) ficaram ruins da cabeça (quemados em la cabeza no original). O objetivo dele era voltar, está agradecido porque não matou ninguém , queria cuidar de seus companheiros e voltar . Disse que o serviço militar era obrigatório  e que ele não é herói. No ano passado voltou às ilhas, isso foi muito restaurador, foi com companheiros e com seu irmão que pode entender melhor as coisas de Patrício. Deu um depoimento em Tigre antes de viajar e outro depois de regressar e se emocionou-se muito com perguntas respeitosas sobre o que aconteceu com os corpos dos companheiros que morriam. Explicou que se arma de uma couraça para não ter de demonstrar o que passa. Hoje está dedicado em conseguir boas coisas para seus companheiros e o faz bem e eu como esposa trato de acompanhar-lo. Eu sim, fiz terapia e , bem, pode ser que venha a tomar uns mates com La Madrid mas terapia? É muito bom que tenha aberto esse Centro. Nossos meninos são meninos e à menina ele canta a marcha das Malvinas quando a faz dormir, mas não anda de verde nem com a jaqueta militar. Ele não quer que se perdam as memórias das Malvinas mas não faz militarizado e  nem enloquecendo os meninos com o mesmo, todos os dias".

E também no caso das veteranas que estão ao lado de seus maridos, vão a todas as reuniões e atos de veteranos, levam a agenda. Muitas sabem mais da história do que eles mesmos: datas, a posição que tinha o marido, em que poço de raposa esteve, em que horas combateu, o nome de todos os que estiveram no mesmo regimento, como estivesse estado ali, "soldadas" - diz Marcela Aldazába.

"EU TAMBÉM SOU UM SER HUMANO"

Adriana Villanueva (50), esposa de Marcelo Vallejo: "Conheci ao meu marido aos nove anos, eramos vizinhos. Antes da guerra já eramos namorados. Não queria que fosse mas ele foi com orgulho, apresentou-se sozinho. A volta foi dura, seguimos namorados e nos casamos. Ele não queria falar de Malvinas, o fazia muito superficialmente... eu perguntava algo mas também fazia com respeito, não? Sim, sempre tentei que ele fosse à um psicólogo mas não, dois anos depois conseguiu trabalho mas seguia na luta, saía da fábrica e se encontrava com outros veteranos, levavam revistas, empapelavam as ruas, malvinizavam. Todo o tempo malvinizava. E eu... muito tempo sozinha. Nós não podíamos ter filhos mas adotamos. Digo que existem filhos que seguem mais a causa e outros que sofre mais, que não querem, meu filho Facundo, de 19, sofreu muito... Meu marido bebia, ia ao Centro... e depois, bebia e se perdia... e ano depois de ano vimos que era pior. Mantinha seu trabalho mas era uma batalha para mim sustentar a casa com ele ausente, ausente. Ele seguia nas Malvinas, como se houvesse ficado nas ilhas. Facundo  sofreu muito e eu não sabia mais o que fazer... Eu às vezes dizia a ele que não podia andar assim, nesse estado, que podia chocar mas ele não entrava. Foram muitos anos, desde 1999, nesse ano no dois de abril veio muito mal, e com minha cunhada tentamos ajudar-lhe, estava matando-se aos poucos. Aí começou outra luta, ir a reuniões de dependentes, brigas com ele, tirar-lhe dos Centros de Veteranos.. Sim, foi terrível , perdi do tempo lindo de meu filho, nós mulheres estivemos muito, muito sozinhas. Temos dois filhos mas o segundo adotamos desde os 5 anos, agora tem 15. E sim,  pensa que dedicou muito empo de sua vida  a isto e perdeu coisas lindas. Não é que me arrependa mas o que quis fazer e a satisfação veio a pouco ao ver que esse cerco que fizemos deu resultados, ele foi saindo, recuperando-se e eu não pude compartilhar viagens, reuniões ou saídas com outras pessoas das Malvinas, ele me afastava, queria estar só com os veteranos mas começou a ver que poderia travar sua luta de outra maneira, de forma mais sadia. Para mim o certo é que uma parte dele ficou nas Malvinas, está lá. Tudo  o que faz é para as Malvinas e para os veteranos mas bem, isso o ajudou e nosso filho mais jovem o acompanha muito. Eu? Eu como todas....  Ele viajou para as ilhas depois de 27 anos para correr uma maratona e isso lhe fez bem. Aí vio que tudo o que se passou não foi inútil, aqui ninguém reconheceu nada, agora à pouco , e lhe fez muito bem, se sentia frustrado com as pessoas mas já não dizem aos veteranos "este é um louquinho..." . Eles necessitam e desejam reocnhecimento e agora estão tendo e, bem, segue igual.... o tema Malvinas é continuo, a vezes à noite... sim, e depois de muito tempo pode contar que morreu um amigo ao lado, o trauma de que na retirada não lhes deixassem levar seus mortos, a culpa... Ele estava indo a uma psicóloga que soube lidar com ele durante a internação e ela me dizia o que tinha de fazer com ele... e, bem, isso me ajudou um pouco porque estávamos sós, muito sós e tentando entender... como irmãs, como mães. Sozinhas por toda vida... Sempre me disse que se eu não estivesse, ele não existiria. Nós choramos por eles e por nós mesmas... também... está é sua própria vida. Também sou um ser humano". 

A psicóloga Adazábal afirma que "há uma dissociação na guerra entre o que se sente e onde se atua, essa mesma dissociação se produz nos afetos no pós guerra, então muito deles estão em casa e não estão, e que passa lhes é alheio e depois passam a estar e a mulher se incomoda, tem de ceder o comando da casa ou compartilhá-lo. O veterano hoje está bem economicamente falando e muitos ficam em casa". A dor e a angústia afloram reiteradamente durante as entrevistas e também as dificuldades para falar sobre si mesmas, sobre o adiado e o desejado, sobre frustrações e sonhos. Não obstante, de dizem felizes de que seus maridos e elas mesmas comecem a ser escutadas e "registradas".

"Quando mais nos distanciamos da ditadura, mais autorizados  nos sentimos  a recordar e falar sobre o que recordamos, a contar", concluiu Eugênio Romero.

(Tradução : J. B. Libório - a matéria original no Página 12 pode ser acessada aqui)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Malvinas , 30 anos: recuerdos personales


Nenhum blog que trate sobre a Argentina, ao menos no viés desse, pode deixar de abordar o aniversário de 30 anos da Guerra das Malvinas acontecida de 02 de abril a 14 de junho de 1982.  No entanto, à par de minhas convicções, não gostaria de discutir questões de demandas que por mais que sejam afetas ao continente, o são principalmente ao povo argentino.
Gostaria de começar a minha abordagem por um fator que me une de maneira muito significativa, ao conflito: a contemporaneidade.
No ano da guerra, completava 18 anos, ou seja, estava sujeito à conscrição, algo semelhante ao COLIMBA argentino, de nada saudosa memória. O meu contato com a guerra surgiu de um trajeto pessoal mas também de algo que pode ser atribuído ao destino, ao menos para quem acredita nele: através de uma coleção de livros fartamente ilustrada acercada da Segunda Guerra Mundial que existia na biblioteca da então Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus “Dr. Jorge Coury” em Piracicaba , São Paulo, capitaneada pela inesquecível Dona Bernadete, lugar onde tomei mais ainda o gosto pelas leituras, isso aos 14 para 15 anos de idade.
Confesso que tinha uma visão ingênua e até romântica da guerra que viria a ser rompida em pouco tempo sob a batuta de outro professor querido, Sérgio Desiderá. Para mim, o soldado era, sem distinção, um herói, alguém que tomava a vida nas mãos e lutava pela honra e pala glória sua e de seu país. Não me passava pela cabeça que aqueles soldados podiam ser vítimas de governante inescrupulosos e sem qualquer contemplação por sacrificar vidas alheias para  que atingissem seus objetivos.
Só sei que em um contexto desses, a explosão da guerra representava o desafio de um David a um Golias, ou seja, pessoas como nós, sul americanos, a desafiar o gigante imperialista inglês.
Soldados Argentinos nas Malvinas: respeito
aos que lutaram
Para minha mãe, era um momento de inquietude: quanto tempo duraria a guerra? O Brasil estaria envolvido? Enviaria tropas? Meu filho estaria conscrito na época? Poderia ser mandado para lutar ao lado dos argentinos? Enfim, nenhuma das teses seria confirmada mas foi o suficiente para colocá-la alerta, com razão.
Só sei que na outrora confiável Veja, foi publicado um mapa das ilhas e à partir desse desenho fiz uma "cobertura jornalistica" com o desenho e texto da evolução das tropas à partir dos informes precários de que dispúnhamos e publicávamos no jornal do colégio.
Foi ali que recebi meus primeiros elogios e estímulo para ser jornalista algo que não levei para a frente por questões outras que não vale mencionar aqui.
Só sei que com a derrota o encanto foi escasseando e passou a ser uma página do passado. A quebra desse esquecimento foi a visita ao Memorial da Praça San Martí em B.Aires. O choque de quando se põe nomes e quantidades às placas somou-se à palavra "Conscripto". Ali poderiam ter se concretizado os temores de minha mãe, se fosse algo mais velho. É uma experiência chocante e que me faz remorar que na guerra não há nada de glorioso e deixa marcas indeléveis na vida de todos como veremos mais à frente em outra postagem.
No entanto, não posso deixar de respeitar o sacrifício de todos os que estiveram em um conflito desnecessário e estúpido mesmo considerando a significância da causa. 
Na minha vida as Malvinas serão inesquecíveis!